De facto, já não falo mesmo da minha vida e dos meus acontecimentos medicamentosos desde dia 13. E isto era suposto ser uma espécie de diário possivelmente futuramente científico sobre os efeitos da fluoxetina e do mexazolam numa estudante universitária de 18 anos com antecedentes de mortes familiares e doenças fatais e depressões e ansiedades e tumores que apesar de benignos são tremendamente assustadores.
O que é certo é que me desleixei aqui, e nunca mais disse nada de jeito. Não só aqui, porque a minha vida está um desastre. Mas o lado positivo é que tenho amigos que realmente me ajudam e realmente devem estar fartos de me aturar apesar de dizerem que o fazem com gosto. Nomeadamente, a Raquel e o novo namorado dela, para o qual ainda não decidi um nome. Eles têm sido fantásticos.
Tenho tido dias bons e dias maus. Nos dias bons, tenho mini-choradeiras que passam num instante e fazem-me sentir orgulhosa de mim mesma por ser capaz de as conter sem as fazer pesar nas entranhas. Nos dias maus, não consigo sair da cama sem pelo menos uma pep talk, não como nada de jeito, etc etc. O truque, pelo que percebi, é pôr-me comida à frente. Tipo isto:
"Mirabelle, comes mais um filetezinho?"
"Não, não quero comer mais nada, não me apetece..."
*põem-me um filete no prato*
*eu devoro o filete*
Ou então aparecem-me em casa com uma pizza camponesa, sem fiambres nem carnes, e dizem:
"Se não quiseres comer deixa para o teu irmão."
*espero que se vão embora e devoro a pizza inteira*
De resto tenho sobrevivido um dia de cada vez. Embora não saiba se posso contar com o Guilherme para estar aqui quando eu preciso.
A Raquel e o namorado para o qual eu tenho de arranjar um nome abriram-me os olhos para isso. O Guilherme não é capaz de lidar com os meus problemas. Apesar de ter sempre sido um querido para mim, e apesar de eu o adorar acima de muita gente, a Raquel abriu-me os olhos e eu realmente vi que ele não quer minimamente saber dos meus problemas. Foi das coisas que mais me custou nos últimos tempos, mas estou há quase uma semana sem falar com ele. E eu falava com ele todos os dias. Todos os dias. E isso tem-me custado imenso, mas acho que tenho forças que chegue para não o ter permanentemente na minha vida.
Por outro lado, o meu ex começou a falar comigo outra vez. E agora não me larga. É mensagens para ir passear, é perguntas pessoais no skype, é ele de certeza a tentar fazer com que eu volte a gostar dele. Moço, se estás a ler isto, fica sabendo: eu não vou voltar para ti. Falo contigo porque preciso de falar, e sei que me conheces o suficiente para me perceber. Afinal, foram 3 anos das nossas vidas. Mas não vamos chegar aos 4. Nunca vamos chegar aos 4.
Voltei a falar também com um tipo com quem cortei relações pouco antes de ir parar à psiquiatria. Porque é que lhe deixei de falar? Não sei muito bem. Ele disse qualquer coisa estúpida que eu num dia normal era bem capaz de tolerar, mas naquele dia não fui. E por isso bloqueei-o em todas as redes sociais e deixei de lhe responder às mensagens de telemóvel. Praticamente deixei de existir para ele. Até que me lembrei dele. E eu ando a esquecer-me de tantas coisas que achei melhor voltar a falar com ele antes que me esquecesse que ele existia. Eu sei que foi tremendamente egoísta da minha parte, porque tanto quanto ele sabia eu podia estar morta. E o que é certo é que, até certo ponto, estava morta por dentro. Mas voltei a falar com ele, acho que é esse o ponto a que queria chegar.
Quanto aos esquecimentos, ando a passar-me completamente com isso. Para não estar aqui a descrever o que me acontece, pensem na Dori do filme "À procura de Nemo". É basicamente isso. E está a dar comigo em doida, porque eu sou a pessoa que se lembra sempre de tudo.
Comprei o batom vermelho de que falei há uns tempos, e agora uso-o todos os dias. Parece que vem com uma atitude nova. Enquanto ando com este batom, eu sou poderosa. Eu posso até chegar ao ponto máximo de exaustão, como cheguei depois de tantas reuniões, e ainda assim continuar a ser uma mulher poderosa e independente que é capaz de tudo.
Tive uma reunião na universidade numa 2ªf das 21h às 00h30. Ainda antes nessa tarde, uma professora incumbiu-me de fazer uma lista de coisa de 80 alunos, listados por nome e número mecanográfico, e agrupados de acordo com as preferências de cada um. O que iria implicar receber cerca de 40 mails. Resumindo, cheguei a casa tardíssimo, e já exausta. Deixei que me levassem para a cama, porque eu já não era capaz. Estava tão cansada que nenhuma posição para dormir era confortável. Dormi mal, como já não dormia há muito tempo, sabendo que 6 horas depois tinha de me levantar para enfrentar um longo dia, com aulas das 9h às 18h, e outra reunião às 17h que se iria prolongar até às 20h30. Nessa manhã, assim que cheguei à universidade, estava calma mas tinha lágrimas a escorrer continuamente dos meus olhos. Eu só queria ter um ataque de pânico, um ataque de ansiedade, para aliviar toda a pressão, mas não era capaz porque estava demasiado exausta. E o que é que eu faço numa situação destas? Deixo-me cair e espero que o mundo pare para eu o conseguir acompanhar. Segundo dizem, foi a queda mais estilosa e bonita que eu podia ter dado. Diz-se que o meu cabelo esvoaçou, que a maquilhagem ficou intacta apesar das lágrimas, e que eu fiquei numa pose extremamente dramática estendida no chão do laboratório. Mas foi um extremo de exaustão, não uma quebra de tensão, por isso estive consciente o tempo todo. Contrariando as ordens de toda a gente, deixei-me descansar no chão frio durante o que me pareceu uma hora mas foram uns meros 5 minutos, e aguentei o dia até ao fim, só eu e o meu batom vermelho. Quando demos por encerrada a reunião, vim para casa e deixei-me dormir até à tarde do dia seguinte. Como é óbvio, a última coisa de que me lembrei foi este blog.
Não me vou prolongar muito mais, mas falta-me falar da nova fêmea do meu progenitor. Hoje não tenho imaginação para nomes, mas hei de arranjar nomes para toda a gente de que falei aqui. O meu pai fez com que fôssemos os três tomar café. Eu estou a tentar habituar-me à ideia, dado o historial de namoradas que ele teve desde que a minha mãe morreu. Não faço ideia se já mencionei aqui a cabra-filha-de-uma-grandessíssima-puta que ele arranjou que me fez da vida um inferno, mas acho que sim. De modo que aceitar uma pessoa nova na minha vida, especialmente neste momento, é complicado. Ela não me parece má pessoa, e a Carla conhece-a e diz o mesmo, e eu já me habituei à ideia de que ela é a namorada do meu pai, mas acho que ele se está a precipitar demasiado. Eu consigo, com muito esforço, aceitar a ideia de uma nova pessoa nas nossas vidas. Mas não consigo fazer o estereótipo de família feliz com uma mulher que é, para mim, uma desconhecida. Muito menos numa altura tão frágil da minha existência. Eu já lhe expliquei isso, e ele pareceu aceitar bem. Afinal, acho que é perfeitamente normal uma pessoa com os meus problemas ter uma certa dificuldade em aceitar uma coisa destas. É confuso, é demasiado.
Eu e o meu batom vermelho conseguimos lidar com reuniões prolongadas e exaustivas em dias consecutivos e fazer o bom trabalho pelo qual sempre fui conhecida. Mas não me peçam para aceitar uma desconhecida e o filho dela como novos membros da família assim de um dia para o outro, porque com isso, nem eu nem o meu batom vermelho conseguimos lidar.