quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Apelo

Ok, parabéns, descobriram o meu blog. Sabem quem eu sou, conhecem-me, e provavelmente andavam à procura dele há algum tempo. Já perceberam que não, não é privado como eu tenho dito às pessoas que sabem que o tenho, qualquer pessoa pode ler. Eu só não queria que o lessem. Mas suponho que também o queiram ler porque se preocupam comigo.

Hoje estou demasiado cansada para escrever muito, por isso vim aqui apenas fazer um apelo.

Se sabem quem eu sou, por favor preservem o meu anonimato. Eu uso um nome pelo qual algumas pessoas me conhecem, Mirabelle Scaffold, e dou nomes fictícios a todas as pessoas que refiro aqui. Por favor preservem esse direito que tenho eu e têm as pessoas que de alguma maneira vêm aqui parar.

Se me conhecem a mim e à minha situação, por favor não me confrontem com o que escrevo aqui, e não divulguem. Como já disse há uns dias, este blog está a ser como uma terapia para mim, e eu sou uma daquelas pessoas que tem dificuldades em falar deste tipo de coisas frente a frente com pessoas que conhece. O que eu digo aqui é para ficar aqui, neste "anonimato", e só deve ser usado em casos extremos,  por exemplo de internamento psiquiátrico, aos quais espero nunca chegar.

Foi por isso que vim para a internet falar da minha vida. Aqui, (quase) ninguém me conhece, e mesmo que me conheçam não tenho de falar frente a frente com ninguém, sejam amigos, familiares, psicólogos, psiquiatras, ninguém. Posso estar à vontade para dizer absolutamente tudo o que me vai na alma, contar todos os meus problemas, confiar que quem quer que esteja a ler isto vai manter confidencialidade, seja por não me conhecer, seja por querer o meu bem e as minhas melhoras.

Apelo feito, despeço-me por hoje com um excerto do livro que ando a ler, que se adequa precisamente ao dia de hoje:

"I climbed the stairs to my apartment, lay down in my new bed and turned off the light. I waited to start crying or worrying, since that's what usually happened to me with the lights off, but I actually felt OK. I felt fine. I felt the early symptoms of contentment." - Elizabeth Gilbert, in Eat, Pray, Love

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Motivações procuram-se

Acordei cheia de motivação, mas não sei para onde foi. Tinha tantos planos, tantas estratégias para contornar as dificuldades que sabia que ia ter hoje, e desapareceu tudo de um momento para o outro.

Sinto-me perdida. Sei onde estou, mas não me sinto aqui. Sei que dia é, mas parece que o tempo parou, deixou de existir. Sinto que estou algures entre duas dimensões, e não pertenço a nenhuma. Sinto-me entre duas paredes de vidro, e só posso escolher entre rastejar para a esquerda ou para a direita, embora não veja o fim das paredes nem para um lado nem para outro. E o que eu queria era saltar, voar, por cima das paredes de vidro, e voltar à realidade. Porque tudo isto soa a um pesadelo, e eu não quero acreditar que não o seja.

Amanhã tenho um exame.
Dia 4 tenho outro exame.
Queria dizer "mal posso esperar por dia 5", mas dia 5 tenho reuniões, horários para fazer, papéis para tratar.
E entretanto chega dia 10, e começam as aulas.

Quando é que vai chegar o dia pelo qual eu devia querer esperar? Qual é a próxima data pela qual devo ansiar?
Qualquer que seja, parece que nunca mais chega, e eu preciso de uma motivação para continuar.

Porque eu tinha motivações, acordei cheia delas, e não sei onde as enfiei.

Vida em 15 minutos

Hoje tomei banho. Ao fim de 11 dias a vegetabilizar, por entre tentativas de estudo e esgotamentos e desculpas e desistências, levantei-me do sofá, e fui tomar banho.

Tentei lembrar-me da última vez que fiz essa coisa tão habitual, tão banal, e tão importante. Foi numa manhã de sexta-feira, mesmo antes da consulta de medicina familiar de onde me encaminharam para a urgência da psiquiatria do hospital. Foi uma manhã de muita pressão, porque ia saber os resultados dos exames médicos que tinha feito.

Quando tinha 16 anos, enquanto tomava banho, descobri um quisto no peito. Entrei automaticamente em pânico, porque embora seja uma coisa muito normal nessa idade, um quisto no peito, para mim, significava cancro. Na altura, a médica mandou-me fazer uma ecografia, e não era nada de especial. Mas desta vez foi diferente. Os resultados da ecografia dizem que eu tenho 6 tumores.

A minha mãe morreu com cancro poucos dias antes de eu fazer 10 anos. Apesar de não perceber a fundo o que se passava, eu sabia tudo. Eu ouvi a minha mãe ao telefone a contar a uma amiga que o cancro tinha voltado. Mais tarde, quando ela já estava de cama, ouvi o meu pai ao telefone com a mesma pessoa, a dizer que já não havia nada a ser feito. Ouvi tudo, processei tudo na minha cabecinha infantil, e decidi que acontecesse o que acontecesse, eu ia ter uma atitude adulta perante a situação, ia cuidar do meu irmão como se fosse meu filho, e nunca ia deixar o meu pai sozinho porque um homem sem mulher a governar a casa não é nada. Ainda hoje não sei como vou sair de casa, porque não sou capaz de os deixar sozinhos.

Desde que ela morreu, passei por várias fases. Primeiro o choque inicial: ela morreu, nunca mais a vou ver, nunca mais vou falar com ela. Depois a falta que ela me fez na adolescência, para me ensinar tudo o que as mães ensinam às filhas; safei-me bem sozinha, mas uma ajudinha tinha calhado bem. Depois a falta dela para me dar conselhos, que ainda hoje sinto.
Mas hoje, a fase por que estou a passar, é uma certa raiva contra a herança genética que me deixou. A culpa não é dela, como é óbvio. Mas sinto raiva. Porque a vida é uma merda e os genes são estúpidos. Porque a não ser que morra atropelada por um camião nos próximos dias, eu vou morrer de cancro. E dói saber isso. Saber que vou acabar numa cama de hospital, a sofrer, possivelmente sozinha. E que por muito que a medicina avance, não vai haver uma cura em tempo útil. Mesmo com os tratamentos que existem hoje, por muito alta que seja a taxa de sucesso, assim que houver uma célula que se deixe mutar, é o fim.

E eu quero lutar contra isto. Eu estudo hoje Biologia para aprender como funcionam estes mecanismos. Depois, quero especializar-me em Biomedicina, para trabalhar com os melhores profissionais na procura do "tendão de Aquiles" das células neoplásicas. Para descobrir não só um tratamento com elevada taxa de sucesso para o cancro, mas principalmente uma terapia preventiva. Porque por muito inteligente que seja um tumor, não pode ser mais inteligente do que centenas de investigadores por todo o mundo, focados num único objectivo: erradicar o cancro.

Mas por enquanto, dedico-me a fazer tudo menos tomar banho.
Porque naqueles 15 minutos em que passo gel de banho pelo corpo, lembro-me que tenho 6 tumores a crescer dentro de mim.
Porque naqueles 15 minutos em que tenho água a escorrer pelo cabelo, lembro-me que num dia destes, mais próximo do que provavelmente estou à espera, vou perdê-lo todo enquanto sofro com a quimioterapia.

Porque naqueles 15 minutos em que estou praticamente parada, vejo a minha vida a passar-me à frente dos olhos, e pergunto-me quanto tempo, de facto, me resta.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Blog terapêutico

Criei este blog como uma forma de terapia.

Mais uma vez, fui medicada sem terapia de acompanhamento, apenas umas "consultas de reavaliação" de quando em quando.
Fui chamada à atenção por uma amiga, vamos chamar-lhe Daniela (nome fictício, assim como o meu e todos os nomes que vierem a aparecer daqui em diante), de que os medicamentos só por só não me vão fazer nada. Consultei-a a ela porque é estudante de medicina, e sempre se interessou pela área da psiquiatria, por isso confio mais nela do que em qualquer outro amigo meu nestas questões.

De qualquer modo, concordo com ela nesse ponto. Acho que os meus problemas mais depressa se resolviam com alguma terapia, alguma conversa, do que só à base de produtos químicos. Não me interpretem mal, eu confio nos medicamentos a partir do momento em que não me estão a fazer mal nem a provocar efeitos secundários, mas acho que meia dúzia de moléculas a mexer com as minhas sinapses, por muito bem que façam o trabalho delas, não me vão fazer esquecer tudo aquilo por que passei, nem todos os problemas que me atormentam.

O que me dizem é que os antidepressivos me dão "espaço de manobra para re-organizar a minha vida". Deduzo por aí que não estou em terapia porque a psiquiatra que estava na urgência do hospital quando lá fui acredita que sou capaz de o fazer sozinha. E talvez até seja, mas era muito mais fácil explicarem-me isso do que me deixar deduzir isso sozinha enquanto escrevo um texto para um blog que criei para substituir um psicólogo fraudulento ou um psiquiatra com tempo muito limitado e preços elevadíssimos.
Mas também o mais provável era não dar conversa ao psicólogo fraudulento ou ao psiquiatra com tempo muito limitado e preços elevadíssimos, porque como já devem ter reparado tenho uma má ideia dos psicólogos e acho que os psiquiatras na sociedade em que estamos têm mais que fazer do que ouvir os meus devaneios.
E suponho que quem quer que esteja a ler isto me esteja a achar uma miúda presunçosa a querer atenção, mas por favor não interpretem isto dessa maneira. Eu sou boa pessoa, a sério que sou. Só desenvolvi um bocado o meu ego porque me isolei da sociedade em geral. Mas isto passa com o tempo.

Mas voltando ao ponto inicial, criei este blog como forma de terapia.
Porque sempre que me tento expressar frente a outra pessoa, seja psicólogo, psiquiatra, uma amiga, ou mesmo o meu professor de Física mesmo antes do exame de Biologia Celular, a coisa corre mal e eu digo 3 ou 4 das palavras que intendia dizer, por entre soluços e uma intensa crise de choro, em vez de fazer um diálogo (mais ou menos) coerente como o que para aqui vai. Embora este diálogo seja um monólogo.

Suponho que sou melhor a monologar.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Hoje estudo. Amanhã volto a conquistar o mundo.

Hoje consegui voltar a estudar.

Há semanas que não me conseguia concentrar, por muito que tentasse. Mas hoje, em plena época de exames, sinto-me feliz por ter conseguido fazer uns meros 8 exercícios de física sem me preocupar com absolutamente mais nada. Por coisa de meia hora esqueci tudo, todos os problemas, todas as preocupações, e especialmente aquele aperto no peito que dói tanto, mas tanto...

O estudo, que até há pouco tempo era o meu escape para tudo, deixou de ser um escape para passar a ser uma preocupação. Porque se não passo estou a gastar (muito) dinheiro em propinas, porque se não passo me cortam a bolsa, porque se não tenho boa nota não posso fazer as pós-graduações que tanto quero fazer. Principalmente porque se não for bem sucedida sinto que estou a desiludir todas as pessoas que acreditaram em mim desde que entrei para a escola primária e fiz o 1º ano em duas semanas.

Eu quero ser bem sucedida. Eu tenho de ser a melhor. Porque eu tenho capacidades mais do que necessárias para estar entre os melhores, e fico frustrada quando não atinjo nem metade do meu potencial. Sinto-me mal quando um professor me diz que a culpa do meu insucesso à disciplina dele é não estudar, quando eu sei perfeitamente que não é isso. É a dor, o aperto no peito, a própria ansiedade de viver, que me condiciona cada movimento que faço no dia-a-dia. É isso que me impede de estudar, de me concentrar em qualquer tarefa, e até de ler por prazer. Eu devorava livros enormes em muito pouco tempo, e agora não consigo sequer ler. Porque dói estar a ler enquanto há tanta coisa no mundo mais importante e urgente para fazer, e o tempo é tão curto.

E o pior é que embora a dor seja física, eu sei que está tudo na minha cabeça. E isso faz com que doa ainda mais.

Introdução

Faz hoje uma semana que fui à urgência psiquiátrica do hospital.
Ou seja, faz hoje uma semana que comecei os antidepressivos. Outra vez.

Não tive boas experiências com antidepressivos quando os tomei pela primeira vez. Também achei um exagero porem uma miúda de 16 anos a tomar Cipralex.
Foi horrível. Comecei com a dose mais baixa, e logo nessa noite tive pesadelos, insónias, dores de estômago e tripas afins. Fui à cozinha às 3h da manhã fazer um chá. Foi difícil descer as escadas com os tremores e a fraqueza. Quando cheguei à cozinha, vi pessoas. Pessoas até simpáticas, a andar pela minha cozinha às 3h da manhã como se andassem em plena cidade em hora de ponta. Apareciam tão depressa por uma parede como desapareciam pela outra. Estavam com pressa, porque estava a chover torrencialmente. Eu também estava coberta em água, mas no meu caso eram suores frios causados pelos malditos comprimidos. Despedi-me das pessoas com um "bom dia" e voltei para a cama, para passar o resto da noite a tremer tanto quanto os pacientes que têm convulsões em Dr. House ou Anatomia de Grey.

No dia seguinte já não os tomei. Convenci-me de que estava óptima, que tinha mais dias bons do que dias maus, que não precisava de comprimidos para nada. Adiei as idas ao médico para não ter de falar sobre isso. Basicamente, escondi o meu problema.

Porque eu tenho um problema. Eu sei que tenho. E por muito que o tente esconder, por muito boa actriz que eu seja durante o dia, à noite tudo se desmorona à minha volta, tudo desaba em cima de mim.