Hoje tomei banho. Ao fim de 11 dias a vegetabilizar, por entre tentativas de estudo e esgotamentos e desculpas e desistências, levantei-me do sofá, e fui tomar banho.
Tentei lembrar-me da última vez que fiz essa coisa tão habitual, tão banal, e tão importante. Foi numa manhã de sexta-feira, mesmo antes da consulta de medicina familiar de onde me encaminharam para a urgência da psiquiatria do hospital. Foi uma manhã de muita pressão, porque ia saber os resultados dos exames médicos que tinha feito.
Quando tinha 16 anos, enquanto tomava banho, descobri um quisto no peito. Entrei automaticamente em pânico, porque embora seja uma coisa muito normal nessa idade, um quisto no peito, para mim, significava cancro. Na altura, a médica mandou-me fazer uma ecografia, e não era nada de especial. Mas desta vez foi diferente. Os resultados da ecografia dizem que eu tenho 6 tumores.
A minha mãe morreu com cancro poucos dias antes de eu fazer 10 anos. Apesar de não perceber a fundo o que se passava, eu sabia tudo. Eu ouvi a minha mãe ao telefone a contar a uma amiga que o cancro tinha voltado. Mais tarde, quando ela já estava de cama, ouvi o meu pai ao telefone com a mesma pessoa, a dizer que já não havia nada a ser feito. Ouvi tudo, processei tudo na minha cabecinha infantil, e decidi que acontecesse o que acontecesse, eu ia ter uma atitude adulta perante a situação, ia cuidar do meu irmão como se fosse meu filho, e nunca ia deixar o meu pai sozinho porque um homem sem mulher a governar a casa não é nada. Ainda hoje não sei como vou sair de casa, porque não sou capaz de os deixar sozinhos.
Desde que ela morreu, passei por várias fases. Primeiro o choque inicial: ela morreu, nunca mais a vou ver, nunca mais vou falar com ela. Depois a falta que ela me fez na adolescência, para me ensinar tudo o que as mães ensinam às filhas; safei-me bem sozinha, mas uma ajudinha tinha calhado bem. Depois a falta dela para me dar conselhos, que ainda hoje sinto.
Mas hoje, a fase por que estou a passar, é uma certa raiva contra a herança genética que me deixou. A culpa não é dela, como é óbvio. Mas sinto raiva. Porque a vida é uma merda e os genes são estúpidos. Porque a não ser que morra atropelada por um camião nos próximos dias, eu vou morrer de cancro. E dói saber isso. Saber que vou acabar numa cama de hospital, a sofrer, possivelmente sozinha. E que por muito que a medicina avance, não vai haver uma cura em tempo útil. Mesmo com os tratamentos que existem hoje, por muito alta que seja a taxa de sucesso, assim que houver uma célula que se deixe mutar, é o fim.
E eu quero lutar contra isto. Eu estudo hoje Biologia para aprender como funcionam estes mecanismos. Depois, quero especializar-me em Biomedicina, para trabalhar com os melhores profissionais na procura do "tendão de Aquiles" das células neoplásicas. Para descobrir não só um tratamento com elevada taxa de sucesso para o cancro, mas principalmente uma terapia preventiva. Porque por muito inteligente que seja um tumor, não pode ser mais inteligente do que centenas de investigadores por todo o mundo, focados num único objectivo: erradicar o cancro.
Mas por enquanto, dedico-me a fazer tudo menos tomar banho.
Porque naqueles 15 minutos em que passo gel de banho pelo corpo, lembro-me que tenho 6 tumores a crescer dentro de mim.
Porque naqueles 15 minutos em que tenho água a escorrer pelo cabelo, lembro-me que num dia destes, mais próximo do que provavelmente estou à espera, vou perdê-lo todo enquanto sofro com a quimioterapia.
Porque naqueles 15 minutos em que estou praticamente parada, vejo a minha vida a passar-me à frente dos olhos, e pergunto-me quanto tempo, de facto, me resta.